UMA BOLA
Eu morava numa cidadezinha muito pequena , os únicos
trabalhos disponíveis era na roça , me lembro muito bem da dificuldade que meu
pai passava para nos dar sustento , muito do que se comia vinha de uma pequena
roça que minha mãe cultivava junto de nossa casa . Não tínhamos conforto algum,
era uma casa de pau a pique de apenas um cômodo sem água e nem energia elétrica
, a mamãe cozinhava numa fogueira com tijolos improvisando um fogão na parte de fora da casa , a coitada tinha
apenas duas panelas velhas que havia ganhado sei lá de quem .
Lembro dela sempre triste , um olhar sofrido , suas feições
revelavam uma idade muito acima da real, estava sempre com um pano amarrado na
cabeça, acho que era por vergonha de seus cab elos maltratados , nunca sorria ,
pois isso mostraria uma boca desdentada , nunca me abraçava nem falava comigo a
não ser o estritamente necessário .
Acredito que essa falta de carinho se dava por ela nunca ter
tido isso de seus pais , mas acho que do jeito dela me amava .
Meu pai, á, que dó! Um resto de ser humano , o trabalho na
enxada havia dilacerado sua coluna , caminhava torto , com grande dificuldade .
Saia cedinho para o trabalho e voltava no final da tarde , as vezes havia janta
, mas geralmente sentava-se num tronco fora de casa e pedia para minha mãe que
com um pano molhado de uma água saloba aliviasse suas feridas que devido a
tanta exposição ao sol nunca se fechavam .
Hoje eu sei, era câncer , mas como nunca havia tido uma
consulta com um médico , achava que iriam sarar um dia .
À mim, nunca dedicara um minuto de atenção , porem aos cinco
anos de idade já me levava para ajudar na roça , e assim foi até meus nove anos
.
A doença de meu pai se agravou muito, já não consegui mais
trabalhar e o que já era ruim piorou, fui obrigado a assumir o trabalho de um
pai. Minha mãe definhava e sua pouca saúde se esvairia , certo dia ao retornar
do trabalho encontrei meu pai aos prantos , ao seu lado um corpo estendido .
Caminhei alguns quilômetros até o pequeno centro daquele
lugar esquecido pela humanidade em busca de ajuda , enterramos minha mãe lá
mesmo .
O tempo ia passando e lá estávamos eu e meu pai vivendo nem
sei como. Aquele homem sofrido, doente que quando bom já pouco falava ,
calou-se em seu sofrimento , vez ou outra notava que dirigia seu olhar em minha
direção , sentia toda angustia daquele ser que já não alimentava nenhuma
esperança em sua vida .
Estava eu preso , minha vida estava simplesmente amarrada
nada podia ser feito , eram dois a espera da morte .
Eu já tinha doze anos quando meu pai faleceu , o enterramos
ao lado de minha mãe .
Pensei : e agora estaria livre para seguir minha vida ? não
, a liberdade não me alcançou. Como sair de lá ? como ir pra cidade ? eu nada
sei ! mas se ficar aqui vou morrer assim como meus pais .
Depois de algum tempo tomei coragem e fui embora , parei na
frente da casa , fitei-a com um olhar enigmático . Aquela cena estaria
incrustada em minha mente . Segui rumo a uma nova vida , com uma pequena trouxa
de pano onde coloquei o chapéu de couro , lembrança de meu pai , o único
cobertor que pouco me servia devido ao calor persistente por aquelas bandas e a
esprança de uma vida diferente .
Chegando a cidade ,sem ter onde ficar, sentei-me no banco da
única praça e lá fiquei por três dias , comi o que uma ou outra alma bondosa me
oferecia .
Eu, um garoto de doze anos , maltrapilho, sem instrução, nem
falar direito sabia , lá estava exposto ao preconceito e ao desprezo .
Já não sabia mais se tinha tomado a atitude certa, pois saí
com medo de morrer naquele fim de mundo e agora estava com medo de morrer
naquele banco .
Então lembrei-me : minha mãe certa vez me falou de Deus e
disse que ele sempre nos acode nos momentos difíceis. Então porque não havia
dado um alento a minha vida, que castigo eu merecera? Porque,porque,porque.
Cai em pranto . Quando menos esperava senti alguém b ater em
minhas costas , virei e vi um senhor negro de fala grossa porém doce , disse-me
: calma garoto, seja o que for daremos um jeito , agora me conta, porque
tamanho desespero?.
Lá ficamos por horas conversando. Qual é o seu nome menino?
Antonio. Pois bem , o meu nome é Sebastião o povo me chama de Tião, não moro
aqui, só estou de passagem , não tenho muito a oferecer mas se quiser pode vir
comigo, vou te ajudar.
Enfim , alguém se interessou por mim, esbocei um tímido
sorriso e aceite , pois que outra alternativa teria?.
Tomamos um ônibus e viajamos umas três horas , chegamos a
cidade onde o senhor Tião morava, poucas palavras trocamos durante o caminho,ao
chegar em sua casa chamou sua esposa e me apresentou . Zulmira este é Toninho
ele irá morar conosco, depois te explico tudo.
Sirva-nos uma b ao refeição, prepare uma cama e veja se temos algumas
roupas que sirvam para ele, também prepare um bom banho ele deve descansar e
nós temos muito para conversar.
Zulmira assim fez, e Toninho que a tempo não tomava banho e
nunca havia dormido em uma cama , desfrutava com grande alegria aquele momento,
um pensamento lhe veio à mente ; será
que Deus me escutou , será que também morri e isto não é verdade , tenho medo
de acordar deste sonho maravilhoso. Enfim adormeci estava cansado e a novidade
da cama me seduziu. Tanto conforto, roupa limpa, banho tomado, alimentado era a
melhor coisa que havia experimentado em toda minha vida.
Enquanto Toninho dormia, Tião conversava com Zulmira, após
explicar-lhe tudo, Zulmira concordou em ajudar o menino e comentou: Tião você
estará substituindo o nosso filho que se foi? Não sei mulher, só sei que tenho
que ajudar, nada mudará o amor que tinha pelo nosso filho, mas temos uma
cratera imensa em nosso coração, quem sabe se de algum lugar nosso filho esta
nos ajudando a curar tamanha ferida colocando esse rapaz em nossas vidas, não
te peço que tenha tamanho amor por
Toninho, mas vamos fazer por ele o que não pudemos fazer por nosso filho.
Toninho acordou cedo , Tião já havia saído para o trabalho.
Sentia-se leve e bem disposto mas totalmente perdido. Foi até a cozinha onde
estava Zulmira que ao vê-lo disse-lhe ; bom dia, dormiu bem? , sim senhora .
Então sente-se e tome seu café e coma em pedaço de bolo fiz ontem a noite , é
de fubá, fiz cremoso do jeito que meu filho gostava experimente . Onde esta seu
filho? Deus o levou há alguns anos seu
nome era Fernando tinha mais ou menos a sua idade quando se foi e não pude mais
ter filhos, vamos mudar de assunto. Sim senhora, obrigado por ter me acolhido e
pelas roupas, agradeça ao senhor Tião por mim.
Espera menino, onde pensa que vai? Esta é sua casa agora.
Lagrimas rolaram em ambos , Toninho correu a um forte abraço, Zulmira foi pega
de surpresa em emoção , aquele abraço gerou uma energia tão forte que podia-se
sentir um forte perfume no ar , ambos sentiam-se como se flutuassem , o sol
mandou um facho de luz que os atingiu e aqueceu seus corpos a descarga de amor
marcou aquele momento como quem assina um contrato para o resto da vida .
Passado esse momento sublime, Toninho indagou : o que devo
fazer, preciso trabalhar para ajudar vocês. Não Toninho você já trabalhou muito
pela sua idade, você sabe ler e escrever? Não senhora nunca tive a felicidade
de ir uma escola. Então me de seus
documentos e venha comigo , vamos matricular você na escola.
O senhor Tião conversava muito com Toninho todas as noites,
fazia questão de ver seus cadernos, Toninho já se destacava na escola, mesmo
atrasado em relação a idade sua dedicação e vivacidade pouco a pouco compensava
as diferenças .
Enfim podia se dizer que era uma família feliz,o amor os
envolia.
Os anos foram passando , Toninho se formou, já chamava Tião
e Zulmira de pais embora respeitasse seus pais biológicos e sua história .
Tião já com Idade avançada viu sua saúde abalada, estava
aposentado,Zulmira se desdobrava em cuidados, mas Tião caiu de cama já não
tinha força nas pernas. Toninho chocado temia passar por tudo aquilo novamente,
costumava ficar por horas ao lado da cama conversando. Certo dia Tião chamou
Toninho e com voz embargada lhe disse : filho, tenho enorme orgulho de você ,
sua historia é triste mas fica tranqüilo
, não irá se repetir, sei que disponho de pouco tempo com vocês, mas saiba que
Deus colocou você em nosso caminho para que houvesse novamente luz em
nossasvidas, e a felicidade nos brindou novamente. Não sei como e nem porque
nosso verdadeiro filho não pode nos ter dado as alegrias que temos. Mas Deus em
sua infinita bondade colocou você em nossas vidas, nós o amamos como um
verdadeiro filho.
Pai, já sofri bastante nessa vida, não quero perder você ,
tenho impressão que carrego algo de ruim pois se você se for não sei o que
farei. Não se desespere filho, Deus sabe o que faz. Agora vá estou cansado e
quero dormir , faça companhia a sua mãe.
Alguns meses se passaram, Toninho conseguiu um bom emprego em
uma industria como auxiliar de escritório, devido ao seu interesse e vivacidade
logo foi promovido a um cargo melhor, cuidava daquele pai com muito carinho, mas
o inevitável aconteceu . Senhor Tião
faleceu, Toninho sofreu mas teve serenidade para entender os desígnios de Deus
e como era da vontade de seu pai, continuou se dedicando ao trabalho ,
conquistou cargos na empresa e se tornou um alto executivo para orgulho de Zulmira que
indagava, porque você não arruma uma moça para casar e constituir sua família,
e a resposta era sempre a mesma : calma mãe , haverá tempo para tudo.
Na verdade ele tinha medo, não queria abandonar os cuidados
de Zulmira que também estava velhinha e que dia mais dia menos teria que seguir
os caminhos por Deus determinados.
Ainda passaram-se alguns anos até que Zulmira faleceu.
Toninho, homem feito, não se casou tinha
medo pois por duas vezes se viu sozinho e não admitia a hipótese de causar tal
sofrimento a alguém.
Um amigo da empresa certa vez o chamou para ir a um culto
numa igreja evangélica, ele gostou e começou a freqüentar , participou de
diversos grupos de estudo do evangelho e encontrou rumo para sua vida,
tornou-se pastor Toninho , aprofundava-se nos estudos e em um culto por ele
ministrado atendeu a um irmão que se dizia possuído, com a mão direita sobre
sua fronte sentiu um arrepio que lhe correu a espinha, tonteou e foi amparado
por seus irmãos . O que houve, que aconteceu? , você desmaiou pastor. Nossa por
alguns momentos senti a presença de meu pai. O senhor precisa se acalmar e
descansar , nada que uma boa noite de sono não resolva.
Mas aquela sensação lhe perturbara de tal forma que não
conseguia esquecer. Deitou-se e dormiu, em seu sono teve uma experiência
estranha, levantou-se e viu o seu pai
biológico em seu quarto. Pai ! o que esta fazendo aqui ? , precisava lhe
falar,muito tempo se passou e hoje entendo melhor as coisas, quero te pedir
perdão filho, quando pude desfrutar de teu amor não dei importância, não dei
valor aos cuidados de tua mãe, não te ensinei nada e nem fiz questão . hoje
vejo que errei muito e quero que me perdoe, ainda não encontrei a tua mãe, mas
preciso pedir perdão a ela também, não conseguirei progredir carregando essa
culpa. Pai não lhe culpo por nada , sua vida foi dura , sua infância foi como a
minha, sua passagem talvez tenha sido meu passaporte para a liberdade, nunca
lhe culpei por nada , passamos o que temos que passar. Que bom meu filho, você
me deu o remédio que precisava, agora sigo com minha carga mais leve à procura
de sua mãe. Adeus filho , bem ora nunca demonstrei saiba que sempre te amei.
continuo na cama? . Pai todo poderoso o que esta acontecendo
comigo? . Fiquei apavorado e acordei assustado.
Como explicar tal experiência será isso ob Ra de Deus ? . No
dia seguinte procurei alguns irmãos mais experientes e relatei o ocorrido, mas
nenhum deu a importância que eu julgava necessária. Até que uma irmã recomendou
que eu lesse um livro chamado nosso lar e lá encontraria explicação para o que
ocorre, e assim o fiz , fiquei encantado e comecei ter uma visão mais
abrangente da vida após a morte.
Hoje sou um espírito desencarnado, em vida sofri, em vida
aprendi o valor do amor, estive em companhia de pessoas capazes de dar amor
incondicional, o sofrimento depura a alma , a vida na terra nos da a
oportunidade de nos redimirmos ante a erros do passado. Crer em Deus e seguir
seus caminhos não tem que ter rotulo algum, o certo e o errado são escolhas que
independem de credo. Amor, bondade,caridade e irmandade são a base da vida
espiritual feliz.
EXPLICAÇÃO
Hoje senti enorme vontade de escrever, então pensei: acho
que vou escrever sobre um menino e sua bola.
Por isso o nome deste relato é BOLA , porem ao começar
escrever o rumo foi alterado.
Agradeço ao plano superior e principalmente ao irmão Toninho
, que Deus o abençoe.
LAERCIO
07/09/2013.