VITÓRIA.
Sim, em uma das
minhas viagens pelo interior , fomos visitar um lugar distante , um ponto
turístico , lugar de mata fechada com
varias nascentes e uma queda de água muito linda , próximo a este lugar havia
uma casinha de pau a pique onde vivia uma família. Ficamos admirados e curiosos
, como alguém podia viver num lugar tão afastado , pensamos que talvez tivessem
carro para que pudessem ir a cidade fazer compras ou ir a um medico ou quem
sabe suprir suas necessidades básicas . A curiosidade fez com que fossemos ate La , conhecer um
pouco daquela família , ao nos aproximarmos o cachorrinho magricelo e mau
cuidado começou a latir freneticamente
anunciando nossa chegada , fomos atendidos por uma senhora de lenço na
cabeça, uma roupa simples ,um aspecto sofrido como já era de se esperar em
vista do cenário que se apresentava , timidamente nos deu bom dia , as suas
costas duas meninas agarradas na saia da mãe,olhos arregalados feito duas
enormes jabuticabas .
Me apresentei, bom dia senhora meu nome é Matilde e este é
meu esposo Rodrigo. Estamos de passagem vimos sua casa tão afastada da cidade e
resolvemos lhe fazer uma visita . Me chamo Aparecida a sora me descurpa nun te
nem um cafezinho pra oferece, qué entra, senta vo chama meu marido . Foi até a
porta e com um grito agudo e desafinado chamou , Zé vem Ca temo visita. As
meninas olhavam admiradas , uma mais nova com aproximadamente com uns oito anos
e a mais velha aparentava quatorze a quinze anos . Enquanto se Jose não chegava
perguntei o nome das meninas a mais velha chamava-se Antonia (Toninha) e a
mais nova Maria . Perguntei : dona Cida, desculpe a curiosidade, mas não é ruim
viver tão longe da cidade.É muito se pelo menos nois tivesse uma carroça pra
leva a gente seria meió . E como a senhora faz para comprar mantimentos e
outras coisas. Oi moça nois num compra nada , num temo dinhero pra nada. E como
vocês vivem . Nois como o que prantamo e as veis o Zé caça um bicho então nois
come carne .
Fiquei chocada, achava que era impossível nos dias de hoje
alguém viver de maneira tão rude, vendo o meu silencio Rodrigo se interpôs e
perguntou para Toninha : Voce estuda,
ela respondeu não sinhô aqui num tem escola pra nois i . Agora quem se calou
foi o Rodrigo , o silencio tomou conta do ambiente ainda bem que chegou o
senhor José . bom dia, é bão vê gente por aqui, bom dia Sr José , pode me chama
de Zé memo , é assim que me conhecem . Me chamo Rodrigo muito prazer em lhe
conhecer , me permita uma pergunta Zé ,
porque vocês vivem tão afastados da cidade ? oi moço, fui criado na roça num gósto
dessas coisas de cidade.Mais suas filha não estudam e o tempo esta passando
,como vai ser daqui alguns anos quando forem adultas ? vai se como é. Essa resposta foi um ponto final na minha capacidade de
compreensão . Chamei a Matilde e disse : bom esta na hora de irmos ,foi um
prazer conhece-los, Matilde estava atônita ,totalmente perdida em seus
pensamentos , se despediu das meninas da dona Cida e seu José, seguimos em
silencio total até o carro e assim
permanecemos até chegarmos no hotel. Descemos para o almoço e quando olhei pra
mesa farta não tive coragem de comer, olhei
pra Matilde e notei que ela nem
havia tocado na comida, trocamos olhares que expressavam profundo sentimento de
culpa , como podíamos desfrutar de mesa tão farta sabendo que em outras
mesas mal havia o que comer, sim estava
pensando naquela família, o olhar daquelas meninas não saia de minha mente.
Matilde , não posso comer quero ir
embora pra casa estou me sentindo o lixo da humanidade. Matilde concordou pedi a conta e encerramos nossa viagem.
O tempo foi passando, mas aquela experiência nunca se apagou,
Matilde sempre comentava : Como estará aquela família ,e aquelas meninas sem
estudo , sem perspectiva de vida. Rodrigo, me sinto tão mal por ter deparado
com tal situação e não ter feito nada pra ajudar , já se passou um ano e isso não saiu da minha cabeça, quero
voltar lá , vamos fazer uma bela compra e levar pra eles , não podemos ficar
inertes ao deparar com o sofrimento dos outros. Ok meu amor , providencie tudo
, amanhã acordamos cedo e vamos ate lá . Assim fiz, no dia seguinte
partimos rumo àquele lugar.
Ao chegar deparamos com a mesma cena, parecia que nada havia
mudado o cachorro anunciou nossa chegada , a dona Cida veio nos receber , mas
algo estava diferente , onde esta a Toninha? Perguntei à dona Cida . Ela
partiu, ah foi pra cidade? Não morreu .
tonteei quase fui ao chão , Rodrigo não se conteve e logo perguntou-lhe: como ,
o que aconteceu ? oi moço é uma história compricada . - Pois conte . - A
Toninha tinha tomado corpo e o safado do pai dela vivia de graça com ela ai um dia escuitei uma gritaria no mato , o Zé pegou a Toninha
na marra e machucou a menina , nois brigamo muito e ele foi imbora. Rodrigo
estava indignado esbravejava, safado sem vergonha esse homem tem que ser preso
, vamos por a policia atrás dele,- Para Rodrigo quero saber da Toninha , conte
dona Cida. Pois é a Toninha embuxo , eu aqui suzinha esperei a criança nasce ,
mais arguma coisa num deu certo despois de uns treis dia ela tava com muita
febre e nem falava coisa cum coisa nem comida ela queria , ai deu no que deu .
- sim mas, e a criança também morreu?, - não senhora , ela ta lá no quarto
drumindo .
Nem perguntei se
podia ver a criança , corri pra lá e vi uma menininha deitada no chão
enrolada em uns panos velhos e sujos o
cheiro daquele quarto era horrível ,
quando desenrolei a criança quase vomitei
a pobrezinha estava suja com o
corpo cheio de feridas de assaduras que
não haviam tido o menor cuidado, gritei :
Rodrigo rápido venha cá , entrei correndo no quarto , essa cena fez uma marca
em meu cérebro que nunca mais se apagaria , então disse à Matilde : precisamos levar essa
criança ao medico imediatamente , chamei
dona Cida para ir conosco pois não poderia carregar a criança sem
autorização de uma pessoa responsável .
Assim que chegamos ao hospital demos entrada no pronto
socorro pediátrico , graças a Deus encontramos um medico experiente e
dedicado que nos deu toda atenção ,
carregou a menina para enfermaria ,chamou uma enfermeira , mandou que desse um
banho na criança e logo em seguida a examinou .
Passados alguns minutos nos chamou para dar relato de suas
conclusões : Esta criança nasceu prematura , esta muito debilitada , em um
quadro grave de subnutrição vamos levá-la a UTI , porém não alimentem muitas
esperanças , agora não depende mais de nós .
Matilde voltou à recepção para fazer a ficha de entrada no
hospital, carregou a dona Cida para dar as informações para a internação de
criança, e mais uma surpresa . A criança não havia sido registrada e não tinha
nome , pedimos então os documentos da mãe da nenê , pior esta também não tinha
documentos por sorte a avó tinha RG.
Eu fiquei no hospital enquanto Rodrigo levou a dona Cida pra
casa pois lá havia ficado a outra filha a Maria .
No caminho dona Cida me disse com a maior simplicidade e
desapego: fica com a criança, não tenho como cuidar dela , se ficar comigo vai
acabar morrendo . Nada respondi , fui apanhado de surpresa só consegui pensar em Deus e questionei : Pai
porque me deste esta missão, não me julgo merecedor de tal confiança por ti depositada a mim, guia meus passos Pai
eterno , não sei o que fazer. Parei o carro , dona Cida desceu e disse : fica
sim , por caridade e seguiu rumo a sua casa.
Dei partida no carro , andei alguns minutos ,minha cabeça
cheia de questionamentos e não tive como continuar , o pranto me havia tomado
conta , desci e me ajoelhei em meio aquela mata e pedi: socorro meu pai , me ajuda estou perdido
tenho medo , porque isso foi acontecer comigo.
Então , e meio ao meu pranto uma voz feminina que vinha não
se sabe de onde me chamou pelo nome , Rodrigo você e sua esposa Matilde
receberam essa missão no dia de seu passeio quando conheceram essa família ,
essa criança vai viver sim e precisa muito de vocês , as portas vão se abrir
para que você consiga a guarda dela ,
não tema , vocês receberam uma grande benção
a Toninha esta conosco em tratamento e tenha certeza nós e ela estaremos
olhando por vocês.
E assim como veio se foi , ainda chorando tomei coragem e
voltei ao hospital , contei a Matilde o que havia acontecido e esta me disse
que enquanto estava no sofá da sala de espera do hospital havia recebido a
mesma mensagem , e por isso estava mais tranqüila quanto a recuperação da pequenina
que nem nome tinha.
Durante os dez dias seguintes onde a pequena permanecia em recuperação Rodrigo
providenciou a documentação de guarda provisória da criança , até que a adoção
fosse autorizada . Madalena nunca deixou de passar uma noite se quer em
companhia da criança a qual já teria
escolhido e dado o nome de Vitoria .
Madalena e Rodrigo se tornaram pais orgulhosos e Vitoria
cresceu estudou se formou e se tornou Dra. Vitória , pediatra que desenvolveu
um magnífico trabalho junto as comunidades carentes , conheceu sua historia e
amou os pais como verdadeira filha.
LAERCIO
28/4/14
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