sexta-feira, 14 de março de 2014

UMA GRANDE LIÇÃO

Minha infância foi normal. Acho. Ia a escola, jogava futbol e outras brincadeiras de criança. Assim cresci.
Pai ausente , pois só pensava em seu trabalho, chegava em casa cansado e pouca atenção me dava, mas era um bom homem . Talvez por ter delegado a tarefa de educar à minha mãe, não se importava por meus assuntos. Já minha mãe cuidava da casa e para ajudar financeiramente costurava pra fora, e com esses afazeres permitia que eu ficasse o tempo todo na rua, brincando com os amigos. O tempo foi passando e eles nem perceberam que eu estava crescendo e chegando a adolescência e com ela a minha curiosidade por coisas que não eram boas. Um amigo me ensinou a fumar, e com 13 anos já me juntava a um grupo de rapazes fazendo vaquinha para comprar cigarros. Fui crescendo e outras coisas surgiram, experimentei a maconha da qual não me livrei mais, parei de estudar e ficava o dia todo na rua. Minha mãe pedia pra que eu ficasse mais tempo em casa, porem sua autoridade já não mais tinha efeito, eu a respeitava , mas não conseguia ficar sem tal adrenalina. Aquela sensação de poder e de alegria trazida pela maconha me fazia bem, me dava coragem, tornava-me um homem, vez ou outra fazia um bico e conseguia dinheiro para meu vicio.
Certo dia, um rapaz que havia vindo não se sabe de onde, ofereceu àquele nosso grupinho uma balinha de cocaína e nos ensinou a cheirar. Nossa foi um êxtase total, nunca havia sentido tal sensação, flutuei, vi coisas, o ar fluía pelos meus pulmões como uma ventania deverão,que maravilha. No dia seguinte ele voltou e novamente pudemos experimentar aquele elixir que nos carregava para outros mundos onde tudo podia, e tudo nos era possível. Mas no terceiro dia, La estávamos esperando o tal rapaz, precisávamos sentir tudo aquilo novamente, sabíamos que não era legal, mas achávamos que conseguiríamos parar e isso não nos faria falta. Bom o rapaz chegou e tinha varias balinhas, mas disse que não poderia nos dar sem que pagássemos. Ninguém tinha dinheiro, então disse que sabia onde minha mãe guardava o dinheiro das costuras, e encorajado pelos amigos fui em casa e peguei, não tudo, somente o suficiente para aquela vez, pois não me tornaria um ladrão, e ainda mais de minha própria mãe. No outro dia um amigo arrumou o dinheiro, não sei como , mas também não me interessou, e novamente fizemos uso da cocaína, e durante um bom tempo um ou outro arrumava dinheiro para a droga. Certo dia , ninguém havia conseguido dinheiro, estávamos desesperados, o rapaz nos ofereceu fiado e disse não ter problema, poderíamos pagar outro dia, e assim vínhamos fazendo, já não podíamos ficar sem a coca, quando o efeito passava me sentia fraco, ficava irritado com qualquer coisa,brigava muito com meus pais, os ofendia cheguei até a agredi-los , eu já estava com 17 anos , não trabalhava e só queria saber de me divertir.
Conheci uma moça e começamos a namorar, ela não sabia que eu usava drogas, eu procurava esconder esse vicio. Ela engravidou e eu não quis assumir e nós nos separamos .
Os momentos de depressão foram piorando a cada dia, eu precisava mais coca, o traficante estava no meu pé , pois queria receber, eu que não admitia roubar meus pais , não resisti e comecei a roubar, sim haviam momentos de lucidez e eu sabia o que estava fazendo mas não conseguia controlar, uma fúria tomava conta de mim e pronto La estava eu fazendo o que havia jurado nunca fazer . Coitados, meus pais sofreram muito pois sabiam o que estava acontecendo, tentavam conversar mas de nada adiantava.
Meu filho já estava com quase um ano e eu ainda não o conhecia. A droga que me dava tanto prazer estava tirando as coisas mais importantes de minha vida, esse caminho é só de ida.
Logo passei a fazer uso de drogas injetáveis e também surgiu o craque por ser mais barato.
Via o sofrimento de meus pais então resolvi não voltar mais para casa, passei a morar nas ruas, conheci a cracolandia e também o crime, roubei, matei, estuprei e fui preso.
Jogado em um presídio, como não tinha documentos e já não sabia mais nada sobre mim mesmo, estava fadado ao exílio total. Meus pais me perderam, não conseguiam me encontrar,  até que desistiram de mim. Eu já estava com 23 anos esquecido em um presídio do interior vivendo como um animal totalmente associável.  A abstinência das drogas me tornava insuportável, me sentia mal, tinha muita febre, meu corpo doía, já não tomava sol, só queria ficar na cela mal me alimentava, um dos presos pediu ao carcereiro que me encaminhasse ao departamento medico, foi quando descobri que tinha AIDS . A noticia não me abalou pois não esperava mais nada da vida a não ser a morte, talvez fosse essa a melhor solução para uma vida inútil e tão desprezível, nunca pensei em Deus acho até que não acreditava em sua existência, não me cuidei, só deixei acontecer .
E ca estou relatando uma existência vazia, minha passagem pela terra não acrescentou nada a ninguém, é como se não tivesse acontecido.Hoje me encontro em tratamento e penso:  Como podia ter sido diferente minha passagem pela vida, a felicidade esta sempre onde nós esquecemos de procurar, está nas coisas que nunca damos valor e nas coisa que nos passam despercebido, como o amor dos pais,as realizações profissionais, como a verdadeira amizade, como o amor a Deus, como acreditar no ser humano e na caridade.
E se há alguma forma de tornar minha passagem útil, é relatar a vida miserável que tive por conta das drogas e a busca ilusória deque o caminho mais fácil seria o melhor .
Se Deus me conceder nova oportunidade, espero fazer as escolhas certas em busca da verdadeira felicidade.


AGRADEÇO AO IRMÃO   MARCOS SILVA MEDEIROS   PELA MENSAGEM ENVIADA EM 24.01.2014